O Português



Breve história da Língua Portuguesa



A língua portuguesa é a continuação ininterrupta, no tempo e no espaço, do latim levado à Península Ibérica pela expansão do império romano, no início do séc. III a.C.

Particularmente está na raiz do processo de romanização dos povos do oeste e noroeste (lusitanos e galaicos), processo que encontrou tenaz resistência dos habitantes originários dessas regiões.

Depois do processo de romanização, sofreu a Península a invasão dos bárbaros germânicos, em diversos momentos e com diversidade de influências, que muito contribuíram para a fragmentação linguística da Hispânia: em 409 foi a vez dos alanos, vândalos e suevos; em 416, dos visigodos. Deste contacto encontramos como resultado a visível influência germânica, especialmente dos visigodos, no léxico e na onomástica (estudo dos nomes próprios de todos os gêneros, das suas origens e dos processos de denominação no âmbito de uma ou mais línguas ou dialetos).

No séc. VIII, em 711, voltou a Península a ser invadida pelos árabes, consumando a série de fatores externos que viriam a explicar a diferenciação linguística  do português no mosaico dialetal que hoje conhecemos. Apesar do largo contributo na cultura e na língua – especialmente no léxico -, a permanência muçulmana não teve força suficiente para apagar as indeléveis marcas de romanidade das línguas peninsulares ( português, galego, castelhano, catalão).

O longo movimento de Reconquista, começado em 718, prolongou-se por séculos.

Em 1095, Afonso VI concedeu autonomia à Província Portucalense e em 1139 Afonso Henriques se proclamou o primeiro rei de Portugal.

O processo de Reconquista propagou este falar comum à Galiza e ao território portugalense em direção ao sul, sobrepondo-se aos dialetos moçárabes aí correntes. Já com a ajuda de cruzados ingleses, alemães , franceses e flamengos, e sob a bandeira portuguesa,  prosseguiu a reconquista de novas cidades do sul, tomadas aos muçulmanos: Santarém, em março de 1147, e Lisboa, em outubro do mesmo ano. Até o séc. XV, segundo Orlando Ribeiro, o Minho ainda não constituía limite lingüístico entre o galego e o português.

O português, na sua feição originária galega, surgirá entre os séculos IX-XII, mas seus primeiros documentos datados só aparecerão nos séculos XII e XIII. Curiosamente, a denominação “língua portuguesa” para substituir os antigos títulos “romance”, “linguagem”, só passou a correr durante os escritores da Casa de Avis, com D. João I. Foi D. Dinis que oficializou o português como língua veicular dos documentos administrativos, substituindo o latim.

Entre os séculos XV e XVI, Portugal ocupou lugar de relevo no ciclo das grandes navegações, e a língua, “companheira do império”, se espraiou pelas regiões incógnitas, indo até o fim do mundo, e, na voz do Poeta, “se mais mundo houvera lá chegara”. (Os Lusíadas, VII, 14)

Depois da expansão interna que, literária e culturalmente, exerce ação unificadora na diversidade dos falares regionais, mas que não elimina de todo essas diferenças refletidas nos dialetos, o português se arrojou, na palavra de indômitos marinheiros, pelos mares nunca d’antes navegados, a fim de ser o porta-voz da fé e do império. São passos dessa gigantesca expansão colonial e religiosa, cujos efeitos, além da abertura dos mares (especialmente o Atlântico e o Índico), foram, segundo afirmação do Humboldt, uma duplicação do globo terrestre.

Tomado o século XII como início da fase a que Leite de Vasconcelos chamou português histórico, isto é, documentado historicamente, podemos dividi-lo em períodos linguísticos.

Adotaremos aqui a seguinte proposta, incluindo na primeira fase a realidade galego-portuguesa:

a) português arcaico: do séc.XII ao final do XIV

b) português arcaico médio: da 1a metade do séc.XV à 1a metade do séc.XVI

c) português moderno: da 2a metade do séc.XVI ao final do XVII (podendo estender aos inícios do séc. XVIII)

d) português contemporâneo: do séc.XVIII aos nossos dias

Ao primeiro período pertencem, além dos textos administrativos de leis, forais e ordenações, a poesia palaciana encerrada nos Cancioneiros medievais (Ajuda, Vaticana e Biblioteca Nacional, antigo Colocci Brancuti), as Cantigas de Santa Maria, algumas vidas de santos (Barlaão e Josafá, S.Aleixo, etc., traduções, em geral, de textos latinos, que chegaram até nós, quase sempre, em cópias mais modernas), o Livro das Aves, o Fabulário de Esopo, a Demanda do Santo Graal, Corte Imperial, entre muitas.

Ao segundo período pertencem o Livro da Montaria, de D.João I, Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem Cavalgar toda sela de D. Duarte, as crônicas de Fernão Lopes (D. João I, D. Pedro, D. Fernando), de Zurara (Crônica dos Feitos da Guiné, Crônica da Tomada de Ceuta), a Crônica dos Frades Menores, as crônicas de Rui Pina, entre muitas outras obras.

Ao terceiro período pertencem as obras históricas e literárias de João de Barros, Diogo do Couto, Fernão Lopes de Castanheda, Damião de Góis, Gaspar Correia, o Palmerim de Inglaterra de Francisco de Morais, a Etiópia Oriental de Frei João dos Santos, a obra literária de Sá de Miranda e o teatro clássico de Antônio Ferreira, a prosa mística da Imagem da Vida Cristã de Heitor Pinto, os Diálogos de Amador Arrais, os Trabalhos de Jesus de Tomé de Jesus e a  Consolação às Tribulações de Israel, de Samuel Usque, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Pero Magalhães de Gandavo, mas a todos excede Luís de Camões que, na sendo “propriamente o criador do português moderno(...), libertou-o de alguns arcaísmos e foi um artista consumado e sem rival em burilar a frase portuguesa, descobrindo e aproveitando todos os recursos de que dispunha o idioma para representar as ideias de modo elegante, enérgico e expressivo. Reconhecida a superioridade de linguagem camoniana, a sua influência dez-se sentir na literatura de então em diante até os nossos dias”. [SA]

Com muita razão, concede Said Ali, do ponto de vista linguístico, um lugar à parte, na literatura quinhentista, às comédias, autos e farsas do chamado teatro de medida velha que tem Gil Vicente seu principal representante, produções de grande importância para o conhecimento da variedade coloquial e popular da época. Pertencem a este gênero especial os Autos de Antônio Prestes, de Chiado, de Jerônimo Ribeiro, a Eufrosina e Ulissipo de Jorge Ferreira de Vasconcelos, sobrelevando-se a todos eles as obras deste genial pintor da sociedade e dos costumes do séc.XVI em Portugal, que foi Gil Vicente.

No século XVII assistimos ao aperfeiçoamento da prosa artística com Frei Luís de Sousa, cuja linguagem representa uma fase de transição entre os dois momentos do português moderno. É o período em que ressaltam os Sermões do Padre Antônio Vieira, os Apólogos Dialogais de Francisco Manuel de Melo, a prosa religiosa do Padre Manuel Bernardes, os quadros bucólicos de Corte na Aldeia de Rodrigues Lobo, além dos representantes da historiografia de Alcobaça.

O século XVIII não é só o século das academias literárias, mas de todo um esforço na renovação da cultura e da instrução pública, sob o influxo dos ideais do neoclassicismo francês, esforço que culminou na reforma pombalina da Universidade, em 1772. Assiste-se a um reflorescimento da poesia com Pedro Antônio Correia Garção, Antônio Dinis da Cruz e Silva, Filinto Elísio, Tomás Antônio Gonzaga e os poetas árcades brasileiros, e Barbosa Du Bocage.

Do ponto de vista linguístico o português contemporâneo, fixado no decorrer do séc.XVIII, chega ao século seguinte sob o influxo de novas idéias estéticas, mas sem sofrer mudanças no sistema gramatical que lhe garantam, neste sentido, nova feição e nova fase histórica.


Expansão da língua portuguesa


Chegando ao Brasil em 1500 com nossos descobridores, praticamente só em 1534 foi introduzida a língua portuguesa com início efetivo da colonização, com o regime das capitanias hereditárias. Conclui-se que a língua que chegou ao Brasil pertence à fase de transição entre a arcaica e a moderna, já alicerçada literalmente.

No Brasil dessa época encontraram os descobridores e colonizadores portugueses uma variedade de falares indígenas, no cômputo aproximado de trezentos, hoje reduzidos a cerca de 170, na opinião de um dos seus mais categorizados conhecedores, Aryon Dall’Igna Rodrigues. Grande extensão territorial da nova terra era ocupada pela família Tupi-Guarani, que apresentava pouca diferenciação nas línguas que a integram.

Veio depois a contribuição das línguas africanas em suas duas principais correntes para o Brasil: ao Norte, de procedência sudanesa, e ao Sul, de procedência banto; temos, assim, no Norte, na Bahia, a língua nagô ou ioruba; no Sul, no Rio de Janeiro e Minas Gerais, o quimbundo.

A pouco e pouco, à medida que se ia impondo, pela cultura superior dos europeus, o desenvolvimento e progresso da colônia e do país independente, a língua portuguesa foi predominando sobre a “língua geral” de base indígena e dos falares africanos, a partir da segunda metade do século XVIII. É bem verdade que no século XVI tínhamos tido no Brasil em Bento Teixeira em Pernambuco, um Frei Vicente do Salvador e um Gregório de Matos na Bahia, e um Padre Antônio Vieira, todos pela ação benfazeja dos colégios religiosos.

Cremos que a consciência do português como língua nacional e língua materna, como disse bem o historiador José Honório Rodrigues citado por Sílvio Elia, está patente no trabalho do povo.

 

Fonte: Moderna Gramática portuguesa - Evanildo Bechara